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HISTÓRICO  |  CONSELHO EXECUTIVO  |  DELEGADOS  |  ESTATUTO


A VIGENCIA DA CEPA

Jon Aizpurua

Cinqüenta anos de atividade ininterrupta em prol da difusao do Espiritismo confirmam o acerto daquele seleto grupo de idealistas argentinos ao propor, insistir e conseguir a fundaçao de um organismo continental que reunisse e combinasse os esforços de amplos setores do movimento espírita pan-americano. Homens como Hugo Lino Nale, Santiago Bossero, Humberto Mariotti, Natalio Ceccarini, Luis Di Cristóforo Postiglioni, Elias Toker, intelectuais e ativos militantes a um mesmo tempo, entreviram a oportunidade de semelhante conciliaçao, a qual para se tornar possível, deveria enfatizar as bases doutrinárias comuns, derivadas dos princípios kardecianos fundamentais, e respeitar os matizes e especificidades que distinguem cada grupamento espírita, como natural resultado de suas próprias origens, história, trajetória e até diversidade cultural e idiossincrásica. Assim, a permanencia da Confederaçao Espírita Pan-Americana, sua constância e crescimento sustentado, constituem, em primeiro plano, uma positiva demonstraçao de que cumpriu cabalmente com os propósitos que animaram seus fundadores. A CEPA é hoje uma realidade geográfica, humana e espiritual de indiscutível presença e consistencia, e ao redor dela, milhares de espíritas se agrupam e trabalham sinergicamente pelos ideais revelados dos planos espirituais superiores e que foram magistralmente codificados por Allan Kardec. Mas nao se deve apreciar o exito da CEPA a partir de seus avanços organizacionais ou administrativos. Mais que o quantitativo é a dimensao qualitativa a que sempre desejamos reivindicar. Nao é nas quotas de poder conquistadas, ou nos desdobramentos burocráticos, que se demonstra o exito de uma instituiçao espírita, mas em seu perfil ideológico, em sua capacidade para ser fiel ao projeto kardequiano e avançar com as ferramentas que oferece, em sintonia com o progresso da humanidade. A vigencia da CEPA está pois, em suas idéias, em seus princípios, em seu dinamismo, em sua permeabilidade as mudanças e a renovaçao, em seu interesse pela atualizaçao cultural e científica, em sua proposta humanista em favor da superaçao moral, intelectual e espiritual das pessoas. A CEPA está vigente porque é, antes de tudo, uma idéia, uma voz, uma referencia, um caminho. O empenho maior por parte de quem assumiu a conduçao da Confederaçao, concentra-se em apresentar em toda sua altura e pulcritude os postulados que integram a Doutrina Espírita; e em sua defesa e preservaçao nos colocamos acima de cortesias, diplomacia, de relaçoes pessoais ou institucionais. Em consonância com esta linha mestra, lutamos por um Espiritismo nítido, limpo, resguardado de sincretismos ou qualquer classe de interpolaçoes ou tergiversaçoes. Um Espiritismo que é:

Unificaçao, na conotaçao popularizada no meio espírita, é tipicamente uma invençao brasileira. Seu claro e jamais negado objetivo é de natureza genuinamente religiosa: a preservaçao de um conjunto de presumíveis verdades, procedimentos e formas de organizaçao capazes de garantir a hegemonia de uma ordem e de um comando pretensamente emanados “do Alto” e delegados a uma instituiçao, que deverá ser sua guardia.

1. Kardecista

Pois assume que os ensinamentos e reflexoes que se desprendem da obra de Kardec, representam a essencia e base do edifício doutrinário espírita. Orientado pela bússola da codificaçao kardequiana, o Espiritismo manterá sempre o rumo correto e alcançará portos seguros. Nao acolherá miscelâneas religiosas, esotéricas, africanistas, indigenistas, orientalistas. Nao sucumbirá as tentaçoes cientificistas que deturpam seu perfil humanista e afastam-no de suas imprescindíveis dimensoes filosóficas e éticas. E o movimento espírita manterá sempre sua condiçao de voluntariado, alheio a qualquer tipo de profissionalismo, aberto ou encoberto, no qual seus dirigentes e integrantes oferecem seus esforços e seu tempo livre motivados por suas convicçoes e sua vocaçao de serviço ao próximo, rechaçando qualquer tipo de remuneraçao. Estamos convencidos de que fora de Kardec, e muito menos contra Kardec, nao há autentico Espiritismo. Agora, esclareçamos: kardecismo nao é kardecolatria. Admiramos, queremos e valorizamos Kardec; mas nao o idolatramos, nao o mitificamos, nao o cremos infalível nem fora do contexto histórico e cultural em que viveu e escreveu. Nenhum ser humano, encarnado ou desencarnado está a margem dessas influencias e seus condicionamentos. Em conseqüencia, somos de opiniao que Kardec é a base do edifício espírita, mas nao sua culminaçao: é a primeira palavra mas nao a última, já que esta jamais será dita; e que nao há verdadeiro Espiritismo sem Kardec, embora nem todo o Espiritismo, hoje, esteja nos livros de Kardec.

2. Progressista

Nas diversas acepçoes que esta palavra possa implicar. O pensamento espírita é um formidável instrumento para o aperfeiçoamento individual e social. Consubstancia-se em valores essenciais como a liberdade, a justiça e a igualdade. Valores que devem transcender o campo teórico e afirmativo para tornarem-se concretos no cotidiano da vida das pessoas. A doutrina espírita promove a edificaçao de uma sociedade onde cada qual possa acessar os bens e serviços que merece; uma sociedade sensível aos que sofrem, aos débeis, aos marginais; uma sociedade que preserve a primazia do ser humano. Progressista também, porque está em sua própria essencia uma postura dinâmica, aberta, autocrítica, capaz de retificar conceitos se isso for necessário como resultado do permanente e vertiginoso processo de mudanças que se vive no mundo. Esta contundente sentença de Kardec deveria colocar-se em lugar visível de cada recinto espírita: O Espiritismo, marchando a par com o progresso nunca será retrógrado, porque se novas descobertas demonstrarem que está equivocado em algum ponto, ou se é revelada uma nova verdade, ele haverá de retificar-se. A humildade faz parte da sabedoria; a prepotencia é demonstraçao de ignorância, credulidade ou fanatismo. O Espiritismo é uma doutrina humana, falível, progressiva, evolutiva. Tem muitas e muito boas respostas, mas nao possui todas as respostas. Tem muito que ensinar, e também muito que aprender. É uma magnífica opçao para o mundo contemporâneo – a melhor, para nós – mas nao é a única. É um caminho, um maravilhoso caminho, mas nao é o único caminho que estimula a melhoria dos homens e dos povos.

3. Livre-pensador

Porque convida a seus filiados e as pessoas em geral, a usar e gozar em sua plenitude do direito ao livre exame de todas as idéias e ao aproveitamento de toda reflexao, critério, ou método que julguem válidos e positivos em qualquer delas, dentro ou fora do Espiritismo. Em nossa ótica nao há autores proscritos , livros proibidos ou excomunhoes; participamos com prazer do livre intercâmbio de opinioes e de críticas, apenas solicitando que sejam expostas com respeito para com as pessoas, com pulcritude na palavra e serenidade no tom. Nao compartilhamos a atitude maniqueísta que se observa em certos setores espíritas que se acostumaram a dividir entre “bons” e “maus” segundo se aplique a quem apoie ou discorde de seus conceitos, chegando inclusive a tachar estes últimos com os piores epítetos . Insistimos num debate sao, fraterno, ideológico, “com ouvidos para ouvir”, no qual se expressem e critiquem idéias com toda liberdade, legítimo caminho para o esclarecimento e o fortalecimento das convicçoes. Jamais se deve esquecer que da discussao sai a luz e que somente se recorre aos qualificativos e as desqualificaçoes quando se esgotam argumentos e razoes. Um Espiritismo livre-pensador é sinônimo de Espiritismo laico, nao religioso, nao igrejificado, que nao se etiqueta com a adjetivaçao de culto algum; livre de pretensoes messiânicas ou salvacionistas; que nao se inclina pela tendencia fanática das ameaças catastróficas ou apocalípticas; que em lugar de conceber o mundo como “um vale de lágrimas e sofrimentos” no qual se vem “pagar dívidas”, apresenta-o como um cenário para o aprendizado e a evoluçao do espírito, e no qual viva com alegria, prazerosamente e em busca da felicidade. É um enfoque espírita que aposta na supremacia da razao, na construçao do conhecimento e se opoe ao estabelecimento de novos ou velhos dogmas ou verdades de fé, sustentados nos ditames de “anjos”, “governadores do planeta”, “médiuns infalíveis”, “falanges espirituais superiores”, “federaçoes providenciais” ou qualquer outra fonte de autoridade que se apresenta a si mesma como divina ou infalível. Liberdade de pensamento, liberdade de expressao e liberdade para a contradiçao e crítica, sao direitos irrenunciáveis que fazem a condiçao de um espírita autentico, e sao direitos que a CEPA, em conseqüencia, garante a todas as pessoas e sociedades vinculadas a ela. Todas as idéias aqui expostas se encontram resumidas no emblema que permanentemente divulgamos para definir o verdadeiro caráter do Espiritismo: Ciencia, Filosofia e Moral. Sao termos adequados, claros e nao anfibológicos, que refletem integralmente seu conteúdo, metas e propósitos. É uma tríplice caracterizaçao epistemológica que se infere com toda legitimidade da definiçao outorgada ao Espiritismo por seu codificador: “É uma ciencia que estuda a origem, a natureza e o destino do espírito e suas relaçoes com o mundo corporal”. Uma CIENCIA experimental capaz de oferecer confirmaçao a seus pressupostos teóricos; uma FILOSOFIA racional que oferece uma visao coerente do homem, da vida e do universo; uma MORAL dinâmica, aberta, que impulsiona a transformaçao global da humanidade ao reino da fraternidade e a felicidade. Nessas e em outras afirmativas é que sustentamos nossa convicçao na vigencia da CEPA


Artigo publicado como editorial da revista América Espírita, de abril/97.

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